A franquia R-Type nasceu nos arcades em 1987, carregando consigo aquele espírito de desafio que só os fliperamas sabiam entregar. Mas foi em 1991, quando a Irem levou o jogo ao Super Nintendo, que o gênero shmup encontrou um palco para de tornar verdadeiramente popular. O SNES, sucessor do Nintendinho, já despontava como um dos consoles mais icônicos da história, e receber um título tão exigente e visualmente impactante ajudou a consolidar a reputação da franquia. Super R-Type não era apenas mais um jogo de nave: era um teste de paciência e habilidade. A jogabilidade cadenciada, os inimigos que exigiam memorização e a dificuldade acentuada criavam uma experiência brutal — morrer significava recomeçar a fase inteira. Esse detalhe, que hoje pode parecer cruel, era justamente o que alimentava a sensação de conquista e fazia cada vitória ser celebrada como um troféu.
O jogo angariou uma legião de fãs que não apenas sobreviveram à dificuldade, mas prosperaram nela. Essa comunidade manteve viva a chama da franquia, transformando R-Type em um dos nomes mais respeitados do gênero até os dias de hoje. É um daqueles casos em que a dificuldade não afastou jogadores, mas sim os uniu em torno de uma experiência compartilhada de superação. Agora, o ciclo se renova: R-Type Dimensions III surge como uma releitura moderna de R-Type III: The Third Lightning, lançado exclusivamente para o Super Nintendo em 1993. A nova versão promete agradar os veteranos que cresceram com o controle do SNES e novos pilotos que deverão desbravar os confins do universo.
Um império, a ameaça crescente de rumores de guerra e um piloto predestinado.
A narrativa por trás de R-Type Dimensios III mantém o jogador envolvido nos acontecimentos relacionados ao império Bydo. Tudo começa com o primeiro jogo, quando a humanidade cria os Bydo como uma arma biológica para combater inimigos interdimensionais que ameaçavam a existência humana. O plano dá errado: os Bydo se tornam uma ameaça incontrolável, atravessando dimensões e voltando para atacar seus criadores. Surge então a primeira missão: lançar a nave R-9A Arrowhead para enfrentar o Império Bydo e impedir sua invasão. O jogo mostra a guerra inicial, onde o jogador destrói a primeira grande frota Bydo e aparentemente salva a humanidade.
Entretanto, dois anos depois, os Bydo retornam mais fortes e adaptados. A humanidade percebe que a vitória anterior foi apenas temporária. Agora, com a nave R-9C Warhead, o jogador enfrenta novas formas de vida Bydo, ainda mais grotescas e resistentes. O conflito se intensifica, revelando que os Bydo não são apenas inimigos físicos, mas uma ameaça existencial, capazes de se regenerar e evoluir. O final deixa claro: a guerra está longe de acabar. Enfim, chegamos em R-Type III: The Third Lightning (Dimensios), os Bydo ressurgem em força total, e a humanidade precisa de uma nova arma: a R-90 Ragnarok, equipada com sistemas avançados e novas Forces (Round, Shadow e Cyclone). A missão é atravessar dimensões e destruir a nave-mãe Bydo, que ameaça a Terra diretamente. Aqui, o tom é mais sombrio: não se trata apenas de repelir uma invasão, mas de enfrentar a própria consequência da arrogância humana em criar algo que não pode controlar.

A narrativa continua basicamente a mesma, mantendo sua essência original e se apoiando principalmente no retorno da mesma ameaça que marcou a experiência anterior. Ainda assim, o grande destaque não está exatamente na história em si, mas nas melhorias implementadas na sua nave, que agora possui recursos muito mais avançados para conseguir enfrentar e equilibrar o nível da ameaça existente. Essas mudanças fazem toda a diferença durante a progressão, trazendo uma sensação constante de evolução e adaptação diante dos desafios apresentados ao jogador.
O contexto continua funcionando de maneira extremamente natural dentro da jogabilidade, encaixando perfeitamente cada elemento da narrativa nas mecânicas de combate e exploração. Tudo parece conectado de forma orgânica, sem que a história interrompa o ritmo da ação. Para um jogador que conheceu o game ainda na década de 90, a experiência ganha um peso emocional ainda maior, chegando quase a uma somatização das lembranças e sensações daquela época. Existe um forte sentimento de nostalgia, mas também a percepção clara de como o jogo conseguiu modernizar certos aspectos sem perder a identidade que o tornou tão marcante originalmente, lembrando que o jogo é uma repaginação, o que não deixa espaço para que a narrativa seja expandida.
Espere por uma jogabilidade honesta e a dificuldade brutal de memorizar detalhes.
Uma dificuldade verdadeiramente punitiva, que exige do jogador não apenas reflexos rápidos, mas também uma precisão minuciosa em cada movimento. R-Type Dimensions III sempre foi e continua sendo um dos shooter’s mais desafiadores já lançados, elevando ainda mais o nível de brutalidade que sempre caracterizou a franquia. Cada fase é construída como um teste de resistência e memória, onde qualquer erro mínimo pode custar caro. O jogo não se limita a bombardear o jogador com inimigos; ele o coloca em cenários estreitos e labirínticos, obrigando a calcular cada deslocamento com cuidado cirúrgico. A sensação é de estar constantemente à beira do colapso, enfrentando chefes que parecem insuperáveis e padrões de ataque que só podem ser vencidos após inúmeras tentativas.
Essa combinação de punição severa e gameplay refinado transforma R-Type Dimensions III em uma experiência única: ao mesmo tempo frustrante e recompensadora. Para os que buscam um desafio extremo, é um verdadeiro campo de provas da habilidade e da paciência. Quando foi lançado, o jogo explorou uma técnica gráfica que se tornou um dos grandes diferenciais do Super Nintendo frente ao Mega Drive, seu principal concorrente: o Mode 7. Esse recurso permitia rotacionar e redimensionar planos de fundo em 2D, criando a ilusão de profundidade e movimento tridimensional — uma inovação que, na época, parecia quase mágica.

Quando R-Type Dimensions III, o uso do Mode 7, você se depara com um verdadeiro teste de habilidade. A rotação e a manipulação dos cenários fazem com que o jogador precise de atenção redobrada, já que a perspectiva dinâmica aumenta a imprevisibilidade dos inimigos e obstáculos. O recurso deixa o jogo com um aspecto moderno, mas logo essa sensação é substituída por uma certa frustração, já que tudo se resume a memória, e nem tanto pela habilidade. As chances de morrer são altíssimas se você não tiver memorizado com precisão onde se posicionar e, principalmente, de onde virão os ataques, destroços e jatos — seja pela frente ou pelas costas.
Parte da construção da dificuldade de R-Type Dimensions III está relacionada a limitação dos espaços. Ainda que a tela continue na mesma proporção, você quase sempre estará em meio a tubulações, cavernas, construções ou sobrevoando naves muito maiores que a sua, que limitam o espaço de movimentação. Essa dificuldade se acentua quando você é atacado por todos os lados e quando você chegar no final de cada nível, se depara com um chefe colossal e principalmente, mortal. Quando o jogo associa a dificuldade de estar em ambientes confinados com inimigos que ocupam a maior parte do que sobrou da área, temos inimigos mortais, como o Recojunator.
Ademais, no modo clássico, o jogo conta com pontos de controle em cada fase, colocando o jogador no meio de cada nível caso você morra. Infelizmente, todas as melhorias são perdidas, o que deixa o jogador pronto para chegar na tela de continue rapidamente, caso não seja ainda mais habilidoso. R-Type Dimensions III continua o mesmo jogo brutal, punitivo e exigindo uma habilidade quase sobrenatural de memória, mas reconfortante a cada pequeno avanço.
R-Type Dimensions III apresenta a clássica dificuldade hardcore 2D com a modernidade do 3D e as facilidades que o jogador casual gostará.
Se a dificuldade elevada continua presente, desafiando até mesmo os jogadores mais corajosos e experientes, o público casual também foi contemplado com uma alternativa que torna a experiência menos frustrante. Em vez de ficar preso em uma sequência interminável de telas de continue ou lidar com pontos de controle distantes, o jogador pode mergulhar no mesmo nível de desafio, mas com uma margem de segurança maior. A inclusão do modo infinito é o grande diferencial: ele mantém intacta a intensidade e os obstáculos do modo clássico, mas oferece vidas ilimitadas. Isso significa que o jogador continua enfrentando os mesmos inimigos, chefes e cenários sufocantes, porém sem o peso psicológico de perder todo o progresso a cada erro.
O recurso revitaliza o jogo, funcionando como um convite claro ao jogador casual que deseja experimentar a brutalidade característica da franquia sem a necessidade de repetir exaustivamente a mesma fase até decorar cada detalhe, cada movimento e cada frame. No fim, o modo infinito não diminui a essência desafiadora de R-Type Dimensions III, mas abre espaço para que mais pessoas possam apreciar sua complexidade, transformando a frustração em aprendizado e a repetição em diversão contínua.

A cada nível vencido, você o deixará disponível na seleção de tela no início do jogo. Independente do modo escolhido, quando você iniciar a partida, poderá escolher começar do último nível vencido, sem precisar reiniciar o jogo. Vale ressaltar que ainda que o modo infinito seja o agregador de jogadores, ele não está relacionado ao placar de pontuação. Você só poderá registrar sua pontuação se estiver jogando no modo clássico. Essa é uma boa maneira dei incentivar o jogador a sair da comodidade e se aventurar no jogo como imaginado pela desenvolvedora.
Em termos gráficos, não há uma ruptura técnica significativa na transição entre os visuais em 2D e 3D, mas o trabalho realizado pelo estúdio KRITZELKRATZ 3000 merece destaque. A equipe conseguiu polir ambos os estilos com cuidado evidente, mantendo a identidade clássica do 2D e, ao mesmo tempo, realçando ainda mais sua beleza. Nesse formato, os cenários e personagens ganham um brilho mais vívido, ressaltando os aspectos sombrios e o toque de horror que sempre acompanharam a franquia. OS detalhes dos inimigos se tornaram mais perceptíveis, especialmente nas naves e criaturas mais complexas, enquanto a paleta de cores foi revitalizada, transmitindo uma sensação de vida e intensidade maior.
Essa atenção aos detalhes reforça a atmosfera única do universo de R-Type, tornando cada fase visualmente marcante. Entretanto, mesmo com todo esse polimento gráfico, há momentos em que a experiência se torna confusa. Em determinadas partes, a movimentação na tela é tão intensa que projéteis e inimigos se misturam ao cenário, tornando difícil identificar de onde veio o disparo que destruiu sua nave. Alternar entre os modos 2D e 3D não elimina esse problema: em ambos, há trechos em que a densidade visual compromete a clareza, deixando elementos quase imperceptíveis e exigindo do jogador ainda mais atenção e memorização para sobreviver.
Se você é daqueles que adora as trilhas sonoras dos shmups (eu adoro), saiba que como não poderia deixar de ser, todo as as trilhas e efeitos foram mais que apenas melhorados, foram reescritos. As mesmas técnicas dos gráficos foram aplicadas nas músicas, você poderá escolher jogar ouvido a trilha e os efeitos sonoros do jogo clássico ou do jogo atual. Claro que a originalidade da composição foi preservada, inserindo somente faixas mais limpas e com efeitos mais evidentes, seja para o bem ou para o mal delas, já que alguns problemas também ganham destaque quando você as evidencia.
R-Type Dimensions III – Vale a Pena?
Não há como negar: muitos dos jogos que curtimos hoje carregam a influência direta da chamada era de ouro dos 16-Bits. Foi nesse período que boa parte dos clássicos do gênero Shmup — ou, como muitos chamam carinhosamente, os jogos de “navinha” — ganharam forma e marcaram gerações. R-Type Dimensions III honra esse legado com maestria. Trata-se de um remake que não apenas aprimora as características do original, mas também preserva toda a identidade da franquia. O resultado é uma experiência com jogabilidade brutal, técnica refinada e diversão em alto nível. No fim das contas, é impossível resistir: sempre cabe “só mais uma partida”…
ÓTIMO
Uma releitura honesta, que carrega todos os elementos que fizeram da franquia R-Type uma experiencia atemporal e consolidaram o gênero Shmup.Pontos positivos👍.
- Adição do modo com vidas infinitas.
- Dificuldade brutal preservada.
- Inimigos remodelados evidenciam o clima de horror.
Pontos negativos👎.
- Poderia haver novos modos de jogo.
- Alguns elementos gráficos se misturam e confundem o jogador.
- Dificuldade elevada pode afastar jogadores casuais.




