A STEAM foi uma das plataformas que mais ajudou a democratizar os jogos, principalmente pela possibilidade de fazer com que qualquer jogador conseguisse publicar seus jogos. Desde então, equipes de desenvolvedores indies menores e até mesmo desenvolvedores solos têm a chance de trazer à vida suas ideias de maneira mais descomplicada, sem as exigências de empresas como Sony e Nintendo. Advindo dessas possibilidades, a desenvolvedora grega CYMBAN, formada por Andrea Dhimojani, único membro do estúdio. Com a ideia de um jogo na cabeça, Dhimojani iniciou um projeto de financiamento via Kickstarter que logo conquistou centenas de financiadores. A campanha ocorreu entre 21 de março e 20 de abril de 2023, arrecadando €21.469 de 667 apoiadores, superando a meta inicial de €9.200. SELINI, é um jogo de puzzle/plataforma cheio de identidade e inspiração que lembra jogos como LIMBO.
Das influências dos replicantes nasce um jogo
SELINI nasce de duas influências centrais, Blade Runner e INSIDE, e, a partir disso, cria seu próprio mundo, cheio de aventura e desafios. A narrativa é intrincada, deixando o jogador imaginar muito do que está acontecendo. Isso já pode ser notado assim que o jogo começa, pois não existe nenhuma introdução que coloque uma ideia na cabeça do jogador, você apenas é inserido no universo e na narrativa sem mais informações. Você estará em um mundo pós-apocalíptico sombrio e totalmente arruinado. Esse mundo está repleto de replicantes sombrios e corrompidos, que podem tanto ajudar você a desbravar e continuar sua aventura, quanto atrapalhar e colocar um fim nas suas ambições. Sem muito mais que isso nos primeiros minutos do jogo, você terá de descobrir o que de fato está acontecendo e qual é seu objetivo nesse universo sozinho. Inicialmente, pode parecer confuso, e realmente é.
O desenvolvedor, tentando manter o foco do jogador totalmente no jogo, não existem cenas ou diálogos no jogo, deixando a experiência limpa. Essa escolha é compreensível, principalmente pelo clima imposto durante a gameplay. Entretanto, confesso que essa escolha não caiu bem, principalmente quando você espera alguma interação com os personagens do jogo e ela não vem. Você pode passar algumas horas no jogo sem saber exatamente qual é o seu propósito, isso no contexto de alguém que está jogando focado. Um jogador mais casual em meio a distrações terá ainda mais dificuldade de entender o propósito do que está fazendo.

Graficamente falando, SELINI usa a escuridão para enfatizar a que a luz é sua arma no jogo. A luz funciona como arma, fonte de cura, além de se misturar com a (pouca) narrativa do jogo. A paleta de cores voltadas para o escuro, enfatiza as poucas cores do jogo e deixa a sensação de solidão no ambiente pós-apocalíptico. Nesse ponto, como já disse, SELINI acompanha jogos do gênero. Como um jogo indie leve, você poderá jogar em configurações mais modestas sem o menor problema, ainda que estejamos em um acesso antecipado. Existem relatos de quedas ocasionais de FPS em áreas mais carregadas, mas nada que torne a experiência ruim. Além disso, a desenvolvedora tem lançado patches de correção que estão melhorando o jogo consideravelmente.
Seja obstinado e observador
SELINI foi desenvolvido com um nível de dificuldade que pode assustar a maioria dos jogadores, pois sem diálogos e com tutoriais que exigem atenção do jogador, não espere que o jogo lhe pegue pela mão e lhe mostre exatamente o que fazer ou como fazer. Conforme você avança no jogo, começará a adquirir novas habilidades e, diferentemente de alguns jogos do gênero, todas elas são determinantes para que você avance no jogo. Não serão poucas às vezes que você aprenderá uma habilidade e minutos depois, terá de usá-la, mas sem qualquer dica do jogo que lhe remeta a ela. Pode parecer que eu esteja exigindo que o jogo ofereça uma certa obviedade, mas quando você jogar, verá que não é nada disso.
Ainda sobre as habilidades, confesso que achei a forma como elas são conseguidas e implementadas confusas. Um exemplo disso foi quando consegui o drone acessório que dispara um projétil. Ainda que o jogo mostre um pequeno tutorial, usar ele foi muito confuso. Não saber exatamente como usar uma habilidade adquirida e se deparar com um quebra-cabeças que exige que você use essa habilidade para transpor, pode deixar o jogador frustrado, eu fiquei algumas vezes. Conforme o jogo evita os diálogos e apenas sugere determinadas ações, a curva de dificuldade aumenta muito.

Uma das mecânicas mais importantes do jogo é o drone, como eu disse. Uma das ações mais importantes é poder disparar projéteis que podem acionar plataformas e portas distantes. Entretanto, quando você morre, você perde o acessório e terá de conseguir ele novamente, algo que não consigo compreender. Quando você perde o drone, terá de reaprender a lidar com inimigos sem essa ajuda. Isso evita que o jogador fique dependente demais de uma única mecânica. Isso implica uma dificuldade alta ao jogo, pois algo tão importante, deveria ser difícil de se conseguir a primeira vez, mas perder sempre que morrer, é frustrante e pode ser o motivo final para o jogador casual deixar o jogo.
SELINI é mais sobre exploração
Ainda que exista alguns combates no jogo, e eles, definitivamente podem matar você e atrasar sua evolução no jogo. A sensação é que o combate no jogo não foi feito para impressionar, já que ele é simples e não exige uma estratégia apurada. O combate existe como um complemento do jogo, servindo para incrementar a sensação de diversão e variedade, mas nem de longe podemos considerá-lo como o amago do jogo. Felizmente, o combate é simplificado, e não exige a mesma curva de aprendizado em relação a exploração e aprendizado das demais ferramentas.
O combate não traz grandes recompensas, funcionando mais como uma ameaça em detrimento do que você pode perder se morrer. Conseguir o drone não é algo fácil, e como você o perde ao morrer, fica a sensação se realmente vale a penas colocar sua vida em risco em um combate tão raso. A desenvolvedora poderia ter trabalhado um pouco mais no combate. A estrutura do jogo facilitaria o uso de combates estratégicos através de armadilhas, por exemplo, mas não é o que acontece. Isso incita o jogador a fazer o que realmente o jogo quer que você faça, explorar.
SELINI não é um jogo totalmente linear, ainda que essa linearidade aconteça em alguns momentos. Essa estrutura faz parte da identidade do jogo, estruturando níveis verticais para posteriormente, avançar horizontalmente. O mapa é interconectado e cheio de áreas bloqueadas. Você só consegue avançar em certas regiões depois de adquirir habilidades específicas ou explorando o nível para conseguir abrir caminho. A mescla entre uma exploração guiada, onde você inevitavelmente avançara com uma exploração intuitiva balanceia a dificuldade, ainda que ele continue alta.

Mesmo que o combate não seja o foco, existem alguns inimigos pontuais que servem como chefes do jogo. Entretanto, mesmo nesses momentos, o combate ainda é repetitivo, seja na forma como você deve se comportar, nas habilidades usadas e até mesmo os inimigos, sendo muito parecidos. Se você é um fã do gênero metroidvania, se sentirá ainda mais adaptado, pois SELINI não esconde suas influências. Ademais, espere o mesmo de sempre, quando vencer, receberá desbloqueia recursos e abre novas áreas onde a exploração contínua. Em um jogo onde a exploração é tão importante, você deve estar se perguntando sobre o mapa. mas que mapa?
SELINI não tem um mapa, e essa decisão, faz parte da identidade do jogo como um todo, abrangendo a narrativa, exploração e dificuldade. Na maioria dos jogos do gênero metroidvania, mapas existem e são detalhados, abrangendo a área, com pontos de referência, pontos de controle e de interesse. A falta do mapa é um diferencial que visa instigar o jogador a exploração mais intuitiva e atenciosa. Note que nem sequer um HUD existe para o jogador acompanhar os pontos de vida. Saber aonde se vai após morrer e não se perder, faz parte da sensação de recompensa do jogo. Não é somente sobre habilidades de combate e exploração, é também sobre lógica e memória. Enquanto não há um HUD, o inventário existe, minimalista, mas com algumas opções e informações. Você poderá acompanhar as habilidades que já conseguiu com um pequeno tutorial. Não há nada de complexo, além disso, um pequeno vislumbre de progressão, mas sem textos ou explicações. Tudo segue o estilo minimalista, você deverá se lembrar desse inventário poucas vezes.
Se você pretende jogar SELINI em PCs portáteis como o Steam Deck, o jogo está certificado na Steam. Isso significa que você pode jogar sem a necessidade de configurações, sejam gráficas ou nos controles. testamos o jogo na plataforma e não houve qualquer problema durante os testes. O jogo se mostra bastante funcional. Entretanto, como um jogo que exige atenção e partidas mais prolongadas, pode não ser divertido quando jogado em partidas curtas.
SELINI — Vale a Pena
Identidade é um termo que serve bem para definir SELINI. O gênero metroidvania está cheio de bons jogos e SELINI tem tudo para ser um diferencial. Seja pela dificuldade ou pelas mecânicas que visam instigar o jogador através da exploração e da narrativa intuitiva. Se você é um jogador, casual ou não, que procura um jogo desafiador e inteligente, SELINI proporcionará boas horas de diversão. O jogo deve passar alguns meses em acesso antecipado, tempo suficiente para a desenvolvedora CYMBAN, que a propósito, tem dado muita atenção ao feedback dos jogadores.
BOM
Com escolhas que proporcionam identidade, SELINI é um jogo com propostas bem definidas, uma dificuldade desafiante e um minimalismo misterioso. recomendado para jogadores experientes ou ocasionais que gostam de desafios.
Pontos positivos.
- Jogabilidade sem complicações.
- Exploração e linearidade balanceados.
- Sensação de imersão.
Pontos negativos.
- Um mapa faz falta.
- Todos os combates são rasos.
- Perder habilidades ao morrer é frustrante.




