Quando o primeiro Alien Breed chegou ao Amiga, em 1991, boa parte dos jogadores que hoje acompanham esta review sequer havia nascido. Ainda assim, isso não significa que a franquia tenha ficado presa ao passado ou restrita a quem viveu aquela época. Ao longo das décadas, a série encontrou diferentes caminhos para chegar a novos públicos, passando por versões para outras plataformas e até por relançamentos modernos. O primeiro capítulo nasceu como um shooter de visão superior desenvolvido pela Team17, combinando ação frenética, ficção científica e uma atmosfera claustrofóbica que ajudou a transformá-lo em um dos clássicos do Amiga. A experiência também ganhou versões posteriores, incluindo o Amiga CD32 e, muitos anos depois, relançamentos para consoles como PlayStation 3 e PlayStation Vita.
Agora, 35 anos após sua estreia, a franquia retorna com Alien Breed 35th Anniversary Collection, uma coletânea que reúne os seis jogos da primeira fase da série e adiciona recursos pensados para facilitar a experiência nos dias atuais. Mais do que simplesmente colocar antigos títulos em uma nova embalagem, a proposta busca preservar a essência dos jogos enquanto oferece algumas comodidades modernas. A seguir, confira nossas impressões sobre essa celebração de uma franquia que marcou uma geração e que agora ganha uma nova oportunidade de ser descoberta por quem nunca teve contato com ela.
A história por traz de todos os jogos Alien Breed, estão experimentos fora de controle, criaturas alienígenas e uma narrativa que ajudou a definir como seria a ficção científica alienígena nos jogos futuros do gênero.
Para quem curte histórias de ficção-científica, a franquia Alien Breed sempre ofereceu boas histórias, sendo um jogo envolvente, com uma trama abrangente. Os três jogos, contidos nessa coletânea comemorativa apresentam histórias independentes, mas compartilham o mesmo universo focado na ficção científica, colocando os protagonistas diante de instalações e naves tomadas por criaturas alienígenas. O primeiro Alien Breed se passa em 2191, a humanidade já se espalhou pelo espaço, enquanto o Corpo Interplanetário tenta manter uma paz cada vez mais instável. Quando a estação de pesquisa ISRC-4, localizada na órbita do gigante gasoso Gianor, interrompe misteriosamente todas as comunicações, dois agentes de elite, Johnson e Stone, são enviados para investigar. O que inicialmente parece ser uma rebelião de colonos logo se transforma em um pesadelo, quando eles descobrem que a estação foi tomada por uma espécie alienígena hostil. A missão passa então a ser uma luta pela sobrevivência e pela descoberta do que aconteceu no local.
A partir da história apresentada no primeiro jogo, a franquia foi expandindo seu universo ao longo dos anos e, nesta coletânea comemorativa, o jogador tem a oportunidade de revisitar praticamente todos os títulos que compõem a primeira era de Alien Breed. É uma seleção que permite acompanhar de perto a evolução da série, desde suas primeiras experiências até tentativas mais ambiciosas de levar a fórmula para novos caminhos. Nesse conjunto, alguns jogos envelheceram de maneira surpreendentemente positiva, como o Alien Breed original e sua versão aprimorada e expandida, Alien Breed: Special Edition 92, além de Alien Breed 2 e Alien Breed: Tower Assault, que ainda conseguem oferecer uma experiência bastante sólida mesmo décadas após seus lançamentos.

Por outro lado, a coletânea também preserva alguns títulos que funcionam melhor como registros históricos do que propriamente como experiências recomendáveis nos dias atuais. É o caso de Alien Breed 3D e Killing Grounds, dois jogos que envelheceram de forma bastante evidente e podem exigir uma dose considerável de paciência do jogador moderno. Problemas de jogabilidade, limitações técnicas e escolhas de design tornam essas experiências mais difíceis de apreciar atualmente, especialmente quando comparadas aos demais capítulos presentes na coleção. Dessa forma, ambos acabam encontrando seu maior valor no contexto histórico da franquia, despertando interesse principalmente entre os fãs mais fervorosos de Alien Breed e aqueles que desejam conhecer toda a trajetória da série, independentemente de suas limitações.
Ainda que Alien Breed carregue influências bastante evidentes dos filmes da franquia Alien, especialmente daqueles que chegaram aos cinemas antes do primeiro jogo da Team17, é interessante perceber como o estúdio conseguiu ir além de uma simples adaptação de conceitos já conhecidos. A ambientação, as criaturas e o clima de isolamento remetem imediatamente ao universo criado no cinema, mas a série gradualmente constrói sua própria identidade e apresenta elementos que ajudam a estabelecer um universo particular. Essa preocupação fica ainda mais clara na maneira como os acontecimentos são conduzidos ao longo dos três jogos, sempre deixando espaço para que a história avance sem parecer forçada. Os finais abertos, que poderiam ser vistos apenas como uma limitação narrativa de sua época, também revelam uma intenção maior por parte da equipe de desenvolvimento. Existe ali a percepção de que aquele universo poderia ser explorado em novas aventuras, ampliando seus personagens, ameaças e mistérios. Mesmo sem apresentar uma narrativa extremamente complexa para os padrões atuais, a trilogia consegue estabelecer uma linha de acontecimentos coerente e progressiva. O mais interessante é justamente acompanhar como uma ideia claramente inspirada pelo cinema vai ganhando características próprias conforme os jogos avançam. No fim, Alien Breed demonstra que suas referências são apenas o ponto de partida para construir uma ficção científica que consegue se sustentar por conta própria.
Alien Breed 35th Anniversary Collection mantém a fidelidade gráfica dos jogos, aplicando bons filtros que evidenciam como a franquia se superou a cada lançamento.
Avaliar uma coletânea é sempre uma tarefa particularmente difícil, principalmente quando estamos diante de vários jogos que, apesar de pertencerem à mesma franquia, apresentam diferenças consideráveis em suas propostas, mecânicas e aspectos técnicos. No caso de Alien Breed 35th Anniversary Collection, a Team17 optou por preservar a identidade visual dos títulos originais, mantendo seus gráficos e características fundamentais para que o jogador possa experimentar cada capítulo da maneira mais próxima possível daquela encontrada em seus respectivos períodos. Ao mesmo tempo, a coletânea oferece recursos destinados a tornar essa experiência mais agradável nos monitores modernos, criando um equilíbrio interessante entre preservação histórica e comodidade.
Entre essas opções estão diferentes filtros que simulam a aparência dos antigos televisores CRT, incluindo Scanlines de nível profissional, TV CRT e o chamado Mega CRT. A utilização desses recursos é capaz de transformar consideravelmente a apresentação dos jogos, principalmente para quem possui alguma familiaridade com a estética dos computadores e televisores das décadas passadas. Jogar com o filtro CRT ativado proporciona uma sensação de nostalgia bastante particular, reproduzindo algumas das características que faziam parte da experiência visual dos jogos daquela época. É uma alternativa interessante para quem não quer apenas observar gráficos antigos em uma tela moderna, mas também recuperar parte da maneira como eles originalmente eram apresentados.
Entre todas as opções disponíveis, o destaque fica para o filtro Mega CRT, especialmente para aqueles que procuram uma apresentação retrô mais fiel às antigas televisões de tubo. Trata-se de uma simulação mais elaborada, que trabalha não apenas com as tradicionais scanlines, mas também com diferentes características visuais associadas às telas CRT. O efeito acrescenta elementos como máscara da tela, brilho, curvatura, variações de intensidade nas cores e outras pequenas imperfeições que ajudam a reproduzir a aparência dos televisores utilizados na época. O resultado é uma imagem mais orgânica e menos rígida, fazendo com que os pixels e gráficos originalmente produzidos para resoluções muito menores se comportem de maneira mais natural em uma tela moderna.
É importante destacar que esses filtros não modificam a essência visual dos jogos, mas oferecem ao jogador a possibilidade de escolher como deseja enxergar esse material histórico. Quem prefere uma apresentação limpa pode simplesmente utilizar os gráficos originais, enquanto aqueles que buscam uma experiência mais próxima das condições em que esses títulos foram originalmente apreciados encontram nos filtros CRT uma excelente alternativa. Essa preocupação demonstra que a coletânea não se limita a reunir os jogos antigos em um único pacote, mas também procura preservar a maneira como eles eram percebidos, respeitando tanto o público interessado em fidelidade quanto aqueles que desejam uma adaptação mais confortável para os padrões atuais. Confesso que esses filtros retrô não me cativam muito, até porque, joguei muito tempo neles durante o início da minha vida gamer, mas não posso deixar de enfatizar o charme deles, principalmente para novos jogadores, que já começaram jogando em telas de LCD ou alta definição.

Falando sobre a câmera, ela é posicionada exatamente sobre o jogador, oferecendo uma perspectiva bem limitada da área. Como o jogo é focado na exploração, a sensação de limitação é alta, exigindo que o jogador tenha familiaridade com os mapas para se sair bem. É fato que a maioria dos jogos dessa época exigiam mais concentração do jogador, fazendo disso, parte da dificuldade. A perspectiva de câmera superior nunca foi a melhor para destacar os gráficos de um jogo 2D, principalmente devido a possibilidade limitada de alguns recursos da época, como por exemplo, o paralax. Felizmente, Alien Breed consegue se sair muito bem dessas limitações, oferecendo boas opções de sombras. As paredes são bem trabalhadas, bem como o piso, elementos de extrema importância quando falamos na escolha da câmera superior em um game 2D, afinal de contas, não temos a perspectiva do horizonte para transparecer a sensação de progressão entre as fases.
Os itens de interesse são bem destacados na tela, mas exigem que o jogador saíba para que exatamente cada um deles serve, já que não temos a descrição deles antes de coletá-los. Não existe muita variação de inimigos, o jogador passará a maior parte do tempo lidando com duas espécies de alien. Com a chegada de Alien Breed 2, novos desafios foram adicionados, como máquinas que interpretam sua presença como hostíl. Ainda que a segunda entrada tenha trazido melhorias significativas, foi com a chegada de Alien Breed: Tower Assault que tivemos um verdadeiro salto na qualidade gráfica. Dentre as melhorias, temos uma qualidade superior nas texturas, mais trabalhadas. também podemos notar que os pixels estão mais detalhados e rodando em uma quantidade maior, oferecendo uma resolução mais suave e gráficos mais agradáveis. Ademais, enquanto os efeitos de iluminação eram muito discretos nos jogos anteriores, a evolução aqui é visível. Confesso que um pouco da tensão foi abandonado em detrimento de uma ação mais enfática. Todas essas melhorias ficam ainda mais evidentes na versão para Amiga CD 32, devido as capacidades de alta definição da mídia digital, mas claro, ainda não estamos falando da mesma qualidade de outros jogos lançados para por exemplo, PlayStation One.
Alien Breed 3D foi a resposta da franquia ao enorme sucesso de DOOM, levando o universo da Team17 para a perspectiva em primeira pessoa e explorando uma proposta bastante ambiciosa para as capacidades do Amiga. Entretanto, esse avanço explorando os limites das capacidades do console fez com que o jogo envelhecesse mal. As faixas laterais ocupam uma parcela enorme da tela, deixando a área destinada à ação reduzida a um pequeno e espremido quadrado no centro. Essa escolha pode ser compreendida quando analisamos as limitações técnicas do Amiga na década de 1990, mas se torna extremamente incômoda quando jogamos atualmente. A baixa resolução, a apresentação visual bastante limitada e os inimigos pouco definidos tornam a experiência cansativa, principalmente para quem não possui qualquer vínculo nostálgico com o período. Ainda existe mérito em observar como a Team17 conseguiu adaptar Alien Breed para o 3D e compreender a importância desse momento para a história da franquia, mas, fora desse contexto, Alien Breed 3D acaba funcionando muito mais como um registro histórico do que como um jogo capaz de prender o jogador atualmente.
Alien Breed 3D II: The Killing Grounds consegue corrigir boa parte das limitações do primeiro jogo e, tecnicamente, representa um salto bastante perceptível. O motor gráfico foi aprimorado, os ambientes ganharam mais definição e os inimigos passaram a contar com sprites consideravelmente mais trabalhados, deixando para trás parte do aspecto borrado que marcava o antecessor. A movimentação dos adversários também evoluiu, apresentando comportamentos mais variados e naturais, enquanto a maior fluidez torna os confrontos mais interessantes. É importante reconhecer esses avanços, especialmente quando lembramos que a Team17 estava tentando extrair o máximo de um hardware que já enfrentava dificuldades para acompanhar a evolução dos jogos em 3D. O problema é que essa evolução técnica não veio acompanhada de uma experiência igualmente refinada em todos os seus aspectos. O jogo continua apresentando limitações evidentes de controle, level design e ritmo, além de situações em que a própria estrutura dos níveis pode transformar a exploração em uma experiência pouco intuitiva e muito cansativa. A ambição técnica é inegável, mas muitas vezes parece que o motor gráfico estava à frente do restante do projeto. Como consequência, The Killing Grounds envelheceu tão mal quanto seu antecessor, ainda que seja claramente mais avançado e interessante do ponto de vista tecnológico. Hoje, seu maior atrativo está justamente em observar até onde a Team17 tentou levar o Amiga, tornando-o um capítulo relevante para entender a evolução de Alien Breed, mas difícil de recomendar para quem busca simplesmente uma boa experiência de tiro em primeira pessoa.
Alien Breed 35th Anniversary Collection preserva a experiência original, com uma dificuldade elevada e um gerenciamento exigente de recursos — elementos característicos de quando os jogos foram originalmente lançados.
Em termos de dificuldade, Alien Breed sempre foi uma franquia lembrada por não facilitar a vida do jogador, apresentando uma curva de aprendizado elevada mesmo quando comparada a outros títulos de sua época. Os labirintos são parte importante desse desafio, exigindo que o jogador tenha atenção constante à direção que está seguindo e saiba exatamente onde precisa chegar para avançar. Embora exista um mapa para auxiliar na exploração, ele funciona muito mais como uma referência de localização do que como uma ferramenta realmente capaz de orientar o jogador. Isso faz com que memorizar caminhos, reconhecer salas e prestar atenção aos diferentes acessos seja praticamente obrigatório durante a jornada. Na época, quando muitos jogos já eram considerados difíceis pelos padrões atuais, Alien Breed conseguia ir além e exigir ainda mais paciência de quem se aventurava por seus corredores.
A dificuldade de Alien Breed fica ainda mais evidente quando percebemos que toda a progressão está diretamente ligada ao gerenciamento de dois recursos fundamentais: chaves e munição. As chaves são necessárias para abrir as portas espalhadas pelo complexo e, sem elas, o jogador pode simplesmente ficar impedido de avançar enquanto os inimigos continuam surgindo. É possível comprá-las nos terminais, mas o preço elevado deixa claro que essa não deveria ser a solução habitual. A proposta é explorar os ambientes e encontrar as chaves pelo caminho, o que transforma cada porta em uma decisão que precisa ser pensada com cuidado. Gastar uma chave para acessar uma sala que não oferece nenhum recurso importante pode representar um erro difícil de recuperar, principalmente quando os inimigos continuam aparecendo sem dar trégua. A munição segue exatamente a mesma lógica: os adversários derrotados não deixam recursos e tudo precisa ser encontrado durante a exploração, assim como os itens responsáveis por recuperar os pontos de vida. Isso cria uma pressão constante, porque permanecer em áreas já exploradas significa consumir recursos sem obter nada em troca. No fim, sobreviver em Alien Breed depende tanto da habilidade para enfrentar os inimigos quanto da capacidade de saber quando avançar, quando economizar e, principalmente, onde vale a pena procurar.
É importante lembrar que a dificuldade de Alien Breed também precisa ser analisada dentro do contexto em que esses jogos foram lançados. Durante os anos 90, era comum encontrar experiências que exigiam mais paciência, repetição e memorização, já que os jogos raramente ofereciam a quantidade de informações e facilidades que encontramos atualmente. Alien Breed leva essa filosofia ainda mais longe ao exigir que o jogador aprenda os caminhos, memorize a localização de recursos e pense antes de gastar cada chave ou disparo. Na época, repetir uma determinada área até finalmente entender sua estrutura fazia parte natural da experiência, enquanto hoje esse mesmo processo pode ser encarado como uma barreira desnecessária. O jogador atual está muito mais acostumado com mapas detalhados, marcadores objetivos, checkpoints frequentes e sistemas que deixam claro para onde seguir. Aqui, boa parte dessas facilidades simplesmente não existe, e isso pode tornar os primeiros contatos com a franquia bastante difíceis.

A dificuldade de Alien Breed está diretamente ligada a um ciclo que era muito comum nos jogos dos anos 90: morrer, entender o erro, tentar novamente e, aos poucos, aprender a superar aquele obstáculo. É uma estrutura que exige do jogador uma boa dose de persistência e que, para quem cresceu naquela época, fazia parte da própria experiência de jogar. Hoje, porém, esse modelo pode causar uma frustração bem maior, principalmente porque muitos jogos modernos procuram reduzir a repetição e oferecem recursos que tornam a progressão mais confortável. Em Alien Breed, a frustração não é exatamente um efeito colateral, mas uma parte importante do aprendizado, já que cada tentativa ajuda a compreender melhor os caminhos, a localização dos recursos e a maneira correta de administrar chaves, munição e pontos de vida. Ainda assim, acredito que a coletânea poderia oferecer algumas alternativas para tornar essa adaptação menos abrupta para o jogador atual.
Mais vidas, uma quantidade maior de pontos de vida ou recursos mais abundantes seriam mudanças simples capazes de suavizar a experiência sem necessariamente descaracterizar seus desafios. Entre as facilidades disponíveis, a possibilidade de salvar o jogo a qualquer momento é a que mais contribui para isso, permitindo reduzir o impacto de uma morte depois de uma longa sequência de exploração. Mesmo assim, salvar livremente não elimina a dificuldade, já que o jogador continua precisando dominar os ambientes e administrar seus recursos. No fim, Alien Breed preserva justamente aquela filosofia de design em que superar a frustração faz parte da recompensa, mas essa característica também pode ser um dos maiores obstáculos para quem chega à franquia décadas depois.
Perfeito para se jogar fora de casa, a coletânea ganha ainda mais brilho na tela dos portáteis.
Eu até poderia escrever esta review sem mencionar como os jogos da coletânea se comportam bem quando levados para uma tela portátil, mas seria difícil ignorar uma das maneiras mais interessantes de experimentar Alien Breed 35th Anniversary Collection atualmente. Embora a coletânea não possua uma avaliação oficial de compatibilidade pela Valve para o Steam Deck, durante meus testes o desempenho foi bastante consistente. Na maior parte do tempo, os jogos permaneceram próximos dos 60 FPS, com eventuais quedas pontuais e de curta duração, que pouco interferem na experiência. Mais interessante ainda é perceber que essa boa adaptação para o portátil não parece ser apenas uma consequência das características simples dos jogos originais.
A própria Team17 comentou sobre o trabalho realizado pensando no Steam Deck, buscando oferecer uma experiência portátil adequada para a coletânea. E, na prática, essa escolha faz sentido, principalmente porque as partidas mais curtas e a estrutura baseada em exploração combinam muito bem com esse formato. Os filtros de imagem também ganham um charme especial na tela do portátil da Valve e, para minha surpresa, a experiência acabou sendo mais agradável do que no meu monitor curvo de 26 polegadas, com resolução Quad HD e 120 Hz. É um daqueles casos em que uma tela menor parece favorecer justamente as características visuais de jogos tão antigos, suavizando algumas imperfeições sem apagar completamente a identidade original. Em algumas opções de câmera, especialmente no formato 16:9, é possível perceber pequenas anomalias causadas pela expansão da imagem para as laterais, algo mais evidente quando estamos atentos aos detalhes. Ainda assim, não considero isso propriamente um problema, já que a coletânea oferece diferentes perspectivas e basta experimentar outra configuração para encontrar uma apresentação que agrade mais.
No fim, trata-se muito mais de uma questão de preferência do que de uma limitação técnica que comprometa a experiência. Curiosamente, essa vantagem da tela menor fica ainda mais evidente nas duas versões em 3D, que parecem se beneficiar bastante do tamanho reduzido do display. Os elementos ficam visualmente mais definidos e algumas limitações gráficas que se tornam muito perceptíveis em uma tela grande acabam ficando naturalmente escondidas. É uma situação curiosa em que jogar em uma tela tecnicamente inferior pode proporcionar uma experiência visual mais agradável e coerente com a proposta de preservar esses jogos clássicos.
Revelando diversos conteúdos extras, temos um vislumbre de uma versão de Alien Breed para PSP e detalhes do anunciado, mas nunca lançado Alien Breed RTS para Dreamcast e PC.
Alien Breed 35th Anniversary Collection oferece uma quantidade impressionante de conteúdo adicional, e o mais interessante é que a própria maneira de acessá-lo faz parte da experiência. Em vez de simplesmente apresentar uma galeria de imagens e vídeos em um menu convencional, a coletânea coloca o jogador dentro de uma estação e transforma essa exploração em uma espécie de visita a um museu interativo. É preciso caminhar pelos ambientes, descobrir os espaços e encontrar os materiais disponíveis, fazendo com que cada novo conteúdo pareça uma pequena descoberta. Entre esses arquivos estão entrevistas com desenvolvedores originais e membros da equipe responsável pela coleção, documentos de design que durante anos permaneceram inacessíveis ao público, artes conceituais, renders, materiais adicionais e conteúdos que nunca chegaram aos jogos lançados.

A coleção vai ainda mais longe ao apresentar protótipos em vídeo de projetos cancelados, incluindo uma versão de Alien Breed para PSP e o curioso projeto de Alien Breed RTS, acompanhados por documentos originais de desenvolvimento e materiais conceituais. Existe algo particularmente interessante em observar essas ideias e perceber quantos caminhos diferentes a franquia poderia ter seguido antes de chegar ao formato que conhecemos. Para quem acompanha videogames não apenas como entretenimento, mas também como parte de uma indústria que produz, modifica e abandona projetos constantemente, esse material possui um valor que vai muito além da nostalgia. No fim, o museu acaba sendo uma das partes mais interessantes da coletânea justamente porque transforma aquilo que normalmente seria apenas material de arquivo em uma experiência que merece ser explorada com calma.
Confesso que boa parte desse conteúdo adicional me fez lembrar de projetos que estavam completamente esquecidos na minha memória, e talvez esse seja um dos maiores méritos desse museu. Foi justamente ao revisitar esses materiais que me lembrei de Alien Breed: Conflict, um projeto sobre o qual cheguei a ler na época e que acabou despertando minha atenção. Depois de ter jogado Enemy Zero, no Sega Saturn, aquele tipo de ficção científica havia entrado definitivamente no meu radar, e a possibilidade de encontrar algo semelhante dentro do universo de Alien Breed era suficiente para criar uma expectativa enorme. O problema é que, como tantos outros projetos apresentados no museu, Conflict nunca chegou a se transformar na experiência que eu imaginava.
Hoje, reencontrar essas referências dentro da coletânea produz uma sensação curiosa, porque aquilo que durante anos existiu apenas como uma lembrança distante agora aparece documentado, acompanhado de imagens, conceitos e informações sobre o desenvolvimento. É justamente aí que Alien Breed 35th Anniversary Collection deixa de ser apenas uma coletânea de jogos antigos e passa a funcionar como um registro de uma franquia e de uma época da indústria. Cada documento, entrevista, arte ou projeto cancelado ajuda a reconstruir uma história que normalmente desapareceria com o passar dos anos. Para quem enxerga os videogames como algo além de uma diversão casual, esse é um conteúdo que merece ser explorado sem pressa, porque algumas das melhores descobertas da coletânea estão justamente naquilo que nunca chegou às lojas.
Alien Breed 35th Anniversary Collection — Vale a Pena?
Revisitar Alien Breed 35 anos depois deixa claro que essa coletânea representa algo maior do que simplesmente reunir jogos antigos em uma mesma edição. Ela preserva uma parte importante da história da Team17 e, principalmente, de um período em que o Commodore Amiga ainda era um espaço relevante para experiências que buscavam levar os limites técnicos e criativos dos computadores da época. Os seis jogos permitem acompanhar essa evolução de maneira bastante particular, mostrando como a franquia mudou ao longo dos anos, quais ideias permaneceram e também quais acabaram envelhecendo junto com a tecnologia. Alguns títulos continuam divertidos e surpreendentemente funcionais, enquanto outros possuem hoje um valor muito mais histórico do que propriamente uma qualidade capaz de competir com produções modernas. E é justamente essa diferença que torna a coletânea interessante para quem deseja compreender a evolução dos videogames. Características como a dificuldade elevada, a exploração pouco guiada e a necessidade de administrar cada recurso mostram uma época em que o jogador precisava se adaptar às regras do jogo, e não o contrário.
Alien Breed 35th Anniversary Collection preserva essas particularidades sem tentar esconder suas limitações, permitindo que cada geração tire uma experiência diferente desse reencontro com o passado. No fim, mais do que uma coleção de jogos antigos, temos aqui um pequeno registro de como a indústria pensava, criava e desafiava seus jogadores há mais de três décadas. E talvez seja justamente essa perspectiva histórica que faça esta coleção continuar relevante mesmo tantos anos depois.
BOM
Uma homenagem surpreendente e a melhor maneira de jogar uma das franquias mais clássicas do gênero sci-fi/alien. Não espere por uma experiência amistosa ou qualquer facilidade, como qualquer experiência que envolve afeto, exige dedicação.Pontos positivos👍.
- Fidelidade a obra original.
- Filtros que melhoram e retratam a experiência de época.
- Muito conteúdo extra com registros históricos inéditos de projetos cancelados.
Pontos negativos👎.
- Dificuldade acentuada.
- Controle do personagem é rústico.
- Os jogos com ambientação 3D envelheceram muito mal.




